10 junho 2008

Senhora dos Afogados ou a minha estréia com o Antunes


Sábado tentei ver Acqua Toffana no SESC Avenida Paulista, mas infelizmente a atriz passou mal e hospitalizada tiveram de cancelar a apresentação daquele dia, mas estando em São Paulo, uma cidade repleta de opções e lá fomos eu e minha amiga enfrentar o trânsito e tentar uma cadeira no Teatro SESC Anchieta, para ver a disputada montagem de Senhora dos Afogados.

Ao chegar lá nos deparamos com uma sulfite colada à bilheteria anunciando que os ingressos estavam esgotados. Demos meia volta e não fosse o tal Geraldinho nos abordar e questionar a nossa saída efusiva rumo a alguma sessão no HSBC nós não teríamos visto a peça. Obrigado Geraldinho! Este que mais tarde viríamos em cena, como um dos personagens desta trama de Nelson Rodrigues, nos sugeriu seu telefone para pleitear bilhetes pra próxima semana ou, quem sabe, alí naquela sessão houvesse desistências e nós poderíamos, enfim, nos juntar a esta tragédia à beira-mar. Deu certo. Fica aprendido que qualquer desistência nessa metrópole é oportunidade inata a alguém. Teje atento!

Até então eu nunca tinha visto Antunes Filho. Não por falta de iniciativa, convite ou falta de instrução de minha parte, mas pelo fato de ora ou outra me deparar com as tais sulfites anunciando lotação máxima de uma de suas montagens em cartaz. Foi uma excelente experiência. Ver um gênio falhar aqui e alí é um prazer inconfesso de nos sentir mais próximo dos Deuses, saca?

A trama se arrasta até a entrada do personagem Misael, encarnado com maturidade e efusivo entusiasmo pelo ator Lee Tahlor. E a medida que os demais atores vão inserindo a existência dos seus personagens na peça, fica evidente que o tal Lee Tahlor é mesmo o melhor um grande ator. Entre uma encenação acadêmica aqui, e outra no minímo honesta acolá, seu personagem Misael ganha a empatia do público, o que poderia ser um erro, a julgar que o Sr.Ministro Misael é um dos grandes vilões da mansão da família Drummond.

Para Nelson Rodrigues vilão é sinônimo de burguesia, e aqui, mais uma vez são os abastados os tais vilões. O enredo da peça trata da obsessão; a obsessão da filha Moema pelo pai, a obsessão do pai Misael por sua fiel esposa, D.Eduarda, e ainda mais pela obessão de ser reconhecido como um home de bem, pelos seus obsessivos vizinhos, e da obessão de um marinheiro em busca de sua mãe, uma prostituta morta violentamente há 19 anos neste vilarejo litorâneo.

A história é a beira-mar, mas o mar aqui não se faz presente. A montagem privilegia a penumbra para dar um tor noir ao espetáculo e tentar um suspense - poucas vezes alcançado. O mar com o seu habitual mistério é fundamental para o desenrolar dos fatos desta trama, mas marca presença numa citação ou fato a ser tratado por alí e em nenhuma referência na sonoplastia ou numa solução cenográfica. Ao menos não optaram por projeção em cena, recurso constante e irritantemente presente em muitas montagens em cartaz por aí.


Impossível não falar do coro das prostitutas. Três atrizes se deleitando em ótima encenação, numa sincronia e homogeneidade de aplaudir de pé. "Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor. O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão", disse Antunes à Folha OnLine quando estreiava no fim de março, mas a sensação que se tem ao final da peça é justamente a contrária; é a de que se ele tivesse mesmo optado pelo tom mais ameno deste texto, podando alguns atores de se afogarem demais na vaidade de sua capacidade dramática, a minha estréia com ele teria sido inesquecível.

Zeca Bral planeja ver a outra do Antunes, Foi Carmen, e contar se a segunda vez é mesmo mais interessante!

(+) SENHORA DOS AFOGADOS
SESC Consolação
29/03 a 27/07.
Sextas e sábados, às 21h. Domingos, às 19h.
R$ 20,00 [inteira] | R$ 10,00 [usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino] | R$ 5,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]


3 comentários:

  1. Nossa, agora que eu liguei o nome a pessoa!
    Assiti a essa peça, também, há alguns meses. Gostei bastante, mas acho que o Antunes filho mais ou menos recicla seus recursos. Digo isto porque, dele, já havia visto antes "A Pedra do Reino" ( com o mesmo ator - gostei pra caramba) e(acho) o pret-a-porter 6.
    Talvez ele possa se dar ao luxo de se repetir, porque afinal, foi ele que inventou este estilo de dramaturgia. Por exemplo, o corinho com as prostitutas era igualzinho ao coro das irmãs na " Pedra"; Ele é muito habilidoso em compor aqueles quadros ( que a Zezé era doida para que nós imitássemos) em movimento, que dão uma dimensão muito apropriada à cena; O teatro do Antunes Filho é o que se pode de chamar de " teatro pobre", no sentido em que se utiliza de recursos cenográficos parcos, mas que criam o efeito certo; Os atores são ótimos, e concordo que o ator principal seja muitissimo bom, mas a sua representação, embora muito verdadeira, melembrou a do outro personagem da " Pedra".
    Entretanto, o Antunes filho consegue criar um ambiente surreal para a obcessão e para Nelson Rodrigues. Vale o mérito de várias soluções cênicas excelentes e a capacidade de fazer o espectador embarcar em universos complexos e intensos.
    Carlos Canhameiro (conhece?), o autoproclamado " Novo gênio do teatro brasileiro", estava sentado ao meu lado(não me reconheceu); foi embora sem aplaudir...

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  2. Sem querer cheguei aqui...
    Pelo meu nome assim citado, como autoproclamado alguma coisa. Pode, por favor, me dizer onde fiz tal autoproclamação? E para quem?
    E... Se me reconheceu, poderia ter falado comigo... Mas, é melhor dar títulos às pessoas do q conversar de fato com elas...
    Espero ter o direito de não aplaudir uma peça... E quem acredita em gênios é o Aladin.
    Há braços.

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