23 abril 2008

A Terra do Nunca Sair de Casa


Ontem eu (re)vi Party Monster. Pouco antes tava lendo a respeito da chamada síndrome de Peter Pan que acomete nossa geração. Talvez você não saiba do que se trata, mas provavelmente conhece alguma vítima. Trata-se daquele seu amigo que já tem lá os seus 20 e poucos anos, até trabalha, estuda, namora, mas não pensa em sair de casa.

Sim, ele vive com os pais e não quer vivenciar a ausência de conforto que o abrigo lhe proporciona. Diferente da geração dos próprios pais que na década de 60 veneravam sair de casa, embalados por uma revolução cultural que girava o mundo. Hoje em dia a coisa anda mansa no que refere-se ao confrontro de idéias entre pais e filhos. Ambos tem ideais em comum, e concordam que vale mesmo é investir na carreira. Em suma, tá rolando uma parceria. E muuuita chantagem de papai e mamãe.

No filme em determinado momento o personagem de James St. James (Seth Green) diz ao Michael Alig (Macaulay Culkin) que ele não é o Peter Pan, numa tentativa de lhe dizer que não adianta fugir das responsabilidades e vivências plenas de seus sentimentos, porque com ou sem maquiagem, meu bem - sim tem muuuuuita maquiagem no filme, a vida terá suas consequências.

A história é real e se passa nos obscuros anos 1980, lá Michael Alig, contemporâneo de Andy Wharol, decide mudar-se pra Nova Iorque e tornar sua vida mais... fabulosa. Ele consegue, mas com igual frenetismo de acontecimentos vai sucumbindo em sua tragédia particular. Vale ressaltar apenas a sua determinação em alcançar o seu - fútil - objetivo.

Estranho que a nossa geração tenha tanto medo de se jogar, né? Não. A manutenção desse medo é bem lucrativa pro mundo dos negócios. Adultos infantilizados consomem mais: mais videogames, mais Toy Art, mais junkie food, mais livros do Harry Potter.

Baladas nostálgicas fazem barulho em metrópoles de todo o mundo. Aqui em São Paulo, a noite Grind da Lôca garante há anos casa cheia em todos os domingos, re-li-gi-o-sa-men-te, a Trash 80's precisou ampliar seus negócios em nova casa na Vila Olímpia depois de consolidar sua pista no centro, além da festa Authoban que na mesma região faz a moçada descer até o chão com um "pi ri pi pi" de invejar a Gretchen.

Há meia dúzia de outros fatores apontados por acadêmicos para relacionar a permanência do jovem em casa, como instabilidade financeira, mercado de trabalho muito concorrido e baixa expectativa de casamento duradouro. Podemos concordar, mas daí a pensar que um dia o mundo já foi melhor e por isso mais fácil sair de casa, aê é nostalgia e babaquice demais, né não?

Zeca Bral | fora de casa há 8 meses, vê preocupado a alta de 160% do feijão

(+) Party Monster (idem) | 2003 | USA / Netherlands | Fenton Baley/Randy Barbato | 98 min.
(+) http://escoladesermundo.wordpress.com/

6 comentários:

  1. Eu estou total nessa fase e olha que já vou pros meus 20 e taaaaaantos anos (faço 30 esse ano!) mas acho que tudo tem seu tempo, uma hora chega esse momento de sair de casa, sem pressa, gente, me deixa, só mais um pouquinho aqui, pô o arroz da minha mãe eu ainda não consigo fazer .... hahahahahaha
    Meu amigo Zeca Bral, arrasando como sempre! Adoro você e TUDO que você faz, sou fã mesmo e vc sabe disso. Mega comentário longo né, chega, vou comer uma comidinha da mamãe ...
    Beijos e assiste "Failure to launch" (é exatamente sobre isso http://www.failuretolaunchmovie.com/)

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  2. Opa Sou Peter Pan também, meu próximo passo agora é pular da janela e ver se vôo.

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  3. gera / man in the box24/04/2008 18:14

    kerido, te dou um tok? pega este filme, poe num saco preto, passa silver têipe e joga no tiête a-go-ra! e desaquenda a fixacao por este filme, que eu sei que vc tem rs

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  4. É triste isso. Acho que esse é o motivo de toparmos com tantas figurinhas desbotadas por aí. Medianas. Medíocres mesmo.
    Na boa, tudo de bom é acompanhar a alta do feijão.

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  5. Como aponta Neil Postman em "O Desaparecimento da Infância", creio eu que o maior dos problemas não está na noção de infância em si, criação iluminista de Rousseau e companhia, mas no fato de que a fase adulta contemporânea não tem referencial. Estamos de volta à idade média, tempo em que os assuntos de criança, as roupas de criança e a mentalidade infantil não diferiam das dos adultos. Com o tempo e a necessidade da contrução teórica, num avanço - digo de passagem- foram criados referenciais para os dois. O Século XX conseguiu desvirtuar tudo. O que é ser um adulto no século XXI? Bem, o ideal de adulto, para o iluminista do sec XVIII, é o sujeito letrado, detentor de discernimento, capaz de tomar decisões políticas na esfera social, maduro.
    Mas, garanto que muitos vão preferir o adulto que é, basicamente, carro, casa, telefone, casado, ações na bolsa,dois filhos e que joga um eventualmente pela janela quando dizer "não" já não basta.
    É, moçada. E o que pensar da terceira idade, então?
    Por isso que digo para os meus alunos: seja criança, brinca até quando der, foda-se que vão dar risada. Senão cresce e vira tudo esse bando de adulto babaca, com bolsinha de Hello Kitty e colecionando bonequinho.

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  6. Camila | fique atenta, hein? As mães tendem a sofisticar os pratos só para nos chantagear. Forni | sei q vc vai longe, meu fi, e certeza que seus pais não vão caber na bagagem uma hora dessas. Gera | Ai, bee. Nemmmm. É a segunda vez q vejo esse filme. Carlos Wilker | Gennnte. Um soteropolitano visitou o blog. Na próx. ofereço café. Alê Chaves | Mininu, o seu comentário virou meio que um post 2. Se puder sempre rebater os demais assim. Arrasa.

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